Éramos mais pobres que todas as famílias residentes daqueles trailers – muito pobres mesmo. Papai tinha dois empregos só para conseguir comprar o alimento de cada dia, já mamãe ficava em casa cuidando dos meus dois irmãos pequenos. Eu tento ajudar no que posso, mas está muito difícil arranjar emprego, não tenho o ensino fundamental completo e isso está dificultando tudo, contudo, tem uma senhora em tratamento de câncer que às vezes acompanho em suas idas ao supermercado. Com ela, eu me abro bastante, é como se fossemos grandes amigos. Lembro-me do dia em que deixamos um frango rolar pelo o corredor de um ônibus em movimento, foi hilário. Compartilhamos cada sorriso e cada lágrima. Agora eu, com o meu cabelo preto, lábios rosados e meu coração apedrejado, estou morrendo para cair em um conto de fadas e em uma dessas arrumar um príncipe encantado que nos tire dessa fase. Tudo no trailer é tão apertado e sinto que junto dos meninos estamos acabando com a intimidade dos nossos pais. O amor é uma forma relutante que em nossos corpos ganha forma, uma brasa que pulam pelo os nossos olhos e junto com as estrelas vestem o céu. Eles não podem reprimi-lo, preciso mudar o nosso destino. Esse o meu atual me desejo, ainda mais depois da notícia em que meu pai teve, assim como a senhora que faço companhia, ele também tem câncer, pensávamos que seria o fim para ele, mas papai aguentou até o último suspiro, depois disso nos deixou, em uma situação pior da que estávamos, o desespero bateu em minha porta e eu abri, com ele eu corri e corri até que caí em cima de mim mesma, me vi em outro corpo, em outra forma em outro estado financeiro. Era estranho, mas bastante curioso, não sei se era coisa da minha cabeça ou se realmente tinha uma pessoa como eu no mundo. Mas logo eu vi, era uma vontade do meu subconsciente de ser outra pessoa, de ter minhas noites mal dormidas e mais dinheiro na minha carteira, um homem sem sofrimento, sem nenhum lamento, mamãe está desesperada, pedindo dinheiro no farol, já eu estou descalço, atrás de alguém me dê emprego, eu estou perdido e nesse momento nem eu me entendo. Viro-me para um lado e o vejo parado, papai está vivo de novo ou talvez eu esteja ficando louco, me viro de volta e volto a correr, eu quero esquecer o que está passando em minha vida, sem esquecer o amor de papai para comigo, eu quero ajudar minha mãe, mas ninguém me dará oportunidade, preciso de um milhão de coisas em um piscar de olhos. O que eu faço é o que eu mais pergunto enquanto vejo a noite invadir o nosso dia. Eu seguro o choro e passo minha mão em meu rosto, e volto a desejar um homem bom para ser o meu mais novo romance.