Por muito além da escura floresta havia uma pequena vila onde a cada quatro anos grandes histórias aconteciam, a vila se chamava Gavaldon e era bem simples e pacata porém lá existiam crenças encantadoras que saíam da biblioteca de contos de fadas do senhor Deauville que ficava repleta de crianças em fila na época em que chegavam os novos livros de contos de fadas diretamente da escola do bem e do mal que segundo as crenças eram duas escolas, uma ensinava o bem e formava almas bondosas para serem heróis de contos de fadas e a outra ensinava o mal para pessoas de almas maldosas para se tornarem antagonistas das histórias encantadoras desses futuros príncipes e princesas.
Em Gavaldon a cada quatro anos duas crianças eram sequestradas pelo diretor da escola e uma era levada para a escola do bem e a outra para a do mal, geralmente as crianças que eram levadas para o bem eram aquelas mais doces e delicadas e que faziam caridades, já as do mal eram aquelas isoladas e mal cuidadas, eram um contraste do belo e do feio, os pequenos príncipes e princesas e os pequenos bruxos e bruxas que mais tarde apareciam nos contos de fadas da livraria do senhor Deauville.
O dia do sequestro das crianças tinha chegado e os aldeões como em todos os anos estavam tapando portas e janelas e cobrindo os filhos de lama com medo de perdê-los para sempre, as aulas naquele dia foram canceladas e isso irritou bastante Gael que tinha várias dúvidas para tirar com os professores sobre questões avançadas demais que ele tinha tentado fazer sozinho, ele não entendia porque tanta gente acreditava naquela superstição idiota de contos de fadas, parecia até que não sabiam interpretar o que era um conto, que era uma coisa que obviamente não existia e foi só criada para distrair as crianças com coisas sem fundamento e nenhuma explicação lógica, agora ele estava sentado com sua pilha de livros esperando por sua visitante que já estava uns cinco minutos atrasada para o encontro de estudos, eles tinham combinado de estudar a noite inteira por conta de um trato que fizeram na escola.
Gael era o garoto mais questionador da sala então acabava atraindo a atenção dos valentões que estavam sempre roubando seus livros e o machucando e isso durou por anos até ele conhecer uma garota esquisita, ela era alta demais perto das meninas da idade dela e tinha uma floresta de cabelos emaranhados e curtos sobre os ombros, os olhos dela eram castanhos porém de longe pareciam vermelhos e ela usava roupas masculinas em vez dos vestidos decorados das outras meninas, inclusive ela tinha ido no dia anterior na casa de Gael para pegar umas roupas "emprestadas", eles dois tinham feito um trato, ela defenderia Gael dos valentões enquanto ele a ajudava com os deveres de casa e agora ele estava esperando ela chegar torcendo para que ela não tivesse se acovardado por causa do mito do sequestro.
Ele esperou por mais algumas horas e nada, teve que apagar a luz para fingir que estava dormindo e sua mãe não vir questionar o que ele estava fazendo acordado, ela mandou ele fechar a janela mas ele não podia ou a garota ficaria do lado de fora, ele pegou uma vela e continuou lendo seu livro e tentando resolver os exercícios ainda esperando que a menina viesse, esperou por mais um tempo e resolveu aceitar a conclusão mais óbvia: ela tinha se acovardado e deixado ele esperando e provavelmente ia chegar no outro dia dando mil desculpas sobre isso, ele continuou lendo até começar a ouvir gritos dos aldeões que ficavam de guarda em frente as casas, então sentiu a presença de alguém a mais dentro do seu quarto.
Gael: Olá??
Gael: Ruby é você??
Então ele apontou a vela para o espelho e viu algo se movendo atrás dele, virou a vela para o outro lado iluminando o que era esperando ver Ruby ou sua mãe ou seu pai porém o que viu não foi nada parecido com uma pessoa normal, na verdade simplesmente não era e nem nunca seria alguém normal, uma sombra enorme e distorcida se movia na direção dele ligeiramente e de forma bem ágil se aproximou e quando Gael se preparou para gritar já se viu sendo carregado pela sombra que disparava na direção da janela aberta, então tudo o que viu foi sua mãe abrindo a porta do seu quarto desesperada e gritando pelo seu nome, a sombra distorcida disparou pela janela enquanto os aldeões começaram a correr com suas tochas nas mãos tentando cercá-la porém já era tarde demais, a sombra já tinha levado Gael para dentro da floresta.
E assim mais um conto se inicia.