Vou falar um pouco sobre mim... Bem, acho que muito, na verdade. Cresci na capital do Espírito Santo, mas nasci no interior, na pequena cidade de Aracruz. Logo que nasci, nos mudamos, pois meu pai, Joaquim José Stones, foi transferido para a sede da empresa onde trabalhou até seus 53 anos, hoje aposentado. Minha mãe, costureira, Dona Helena Stones... Bem, ela odeia ser chamada assim. Mas, para vocês, o que é ódio?
Fui criado em um lar totalmente normal — pois família perfeita não existe —, amado pela minha mãe, amado por meu pai. Era filho único até que completei meus 4 anos, quando, no meu aniversário, que não ligava e nem ligo, meu presente foi a notícia de que eu teria uma irmãzinha. Éramos uma família humilde, então, ganhava presente somente no natal.
Era para eu ficar feliz?! Não sei... Não sei ao certo, porque eu consigo ver felicidades, mas não sei senti-la, assim com o amor, se que é que ele existe.
Você pode me achar um psicopata, sociopata e até frio, já me disseram isso várias vezes, me colocando em conjuntos de nomes, mas uma coisa é certa: por ter crescido em uma família de princípios, até religiosos eu diria, consigo controlar esse meu gênio. Se é que isso é considerado uma personalidade, pois dizem que sou doente.
Eu não me considero uma má pessoa, e o que me ajudou a me tornar este homem que sou hoje, apesar de às vezes ter sido difícil, foi o carinho e opressão quando fazia coisas erradas.
Quando a minha irmã Celina Stones nasceu, me isolei. Eu simplesmente via ela deitada no berço e não sentia nada. Ela parecia sorrir para mim, mas isso não alegrou meu coração. Acho que com o tempo meus pais perceberam e, por conta disso, me levaram ao médico e me classificaram como autista no primeiro instante. Porém, logo notaram não se tratar de autismo, pois eu não ligava para organização — e cá pra nós... Para quê? Além do mais, autistas têm mais sentimentos do que eu poderia ter.
E com o tempo, ao entrar na escola, fazia questão de não ter amigos. Certa vez, eu quis matar o cachorrinho do vizinho. Segurei muito para não realizar isso, pois o pobre animal não tinha culpa de nada. Mas aquele infeliz, sim, era capaz. Se eu tenho capacidade de amar, por enquanto, ou melhor, até hoje não descobri.
PSICOPATOLOGIA diz-se de um indivíduo de personalidade psicopatológica e de comportamento anti social, ao qual falta senso de responsabilidade moral ou consciência.
Sociopata é uma palavra usada para descrever uma pessoa que sofre de sociopatia, um transtorno de personalidade que provoca um comportamento impulsivo, hostil e anti social, e é caracterizada por um egocentrismo exacerbado, que leva a uma desconsideração em relação aos sentimentos e direitos das outras pessoas.
Um sociopata não tem apego aos valores morais e é capaz de simular sentimentos para conseguir manipular os outros. Além disso, a sua incapacidade de controlar as suas emoções negativas torna muito difícil estabelecer um relacionamento estável, então, creio eu que também não sou isso.
Vocês devem estar se perguntando: Então por que falar de mim? Bem, logo vocês vão entender.
Digamos que eu trabalho com espionagem. E se você acha ou acredita que sou um assassino de aluguel, errou feio.
Quando comecei a trabalhar com isso? Bem, não sei ao certo. E também não sei como eles me conheceram e me encontraram. Suponho que tenha sido pelos feitos "heróicos!"
Certo dia estava fazendo uma caminhada, tranquilo, quando vi uma mulher ser assaltada, com um homem a ameaçando de canivete, dá para acreditar?!
"Passa a bolsa, madame!", ameaçou, apontando o canivete na cara dela."
Eu cheguei tão rápido que puxei o canivete entre os dedos e joguei o homem na parede ao lado com meus ombros, peguei o canivete e virei a ponta para ele, acertando entre os seus dedos. Ele me olhou, arregalando os olhos. Sorri, não porque estava feliz, mas porque as pessoas tinham manias disso, então, achei prático.
"Cai fora!", disse a ele, puxando o canivete da parede, raspando entre seus dedos do meio. Ele saiu correndo.
"O-obrigada", disse a mulher, meio amedrontada, catando a bolsa do chão.
"Não me agradeça! Não fiz por você, fiz para mostrar para o imbecil que ele não era bom."
Saí de lá, voltando a colocar a carapuça na cabeça, sem olhar a reação da mulher.
Também pode ter sido pelo ocorrido no mercado. Não gosto de lugares públicos, e tão pouco de restaurantes ou comidas fast food, que nos envenenam. Tinha que comer, então me restava o mercado.
Estava eu escolhendo umas alfaces quando chegaram dois homens armados. Um foi em direção ao caixa, o outro, apontou a arma nas minhas costas.
Merda! Eu não estava com paciência!
"Isso é um assal…" Mal o deixei terminar a frase e girei meu corpo, pegando na mão que segurava a arma, segurando-a e colocando meu dedo no gatilho junto ao dedo dele, mirando a arma na cabeça do comparsa que estava no caixa. O outro braço, puxei para trás, o deixando imobilizado.
"Larga a arma ou atiro", esbravejei. O bandidinho de merda deixou a arma cair, se virando para mim. O homem no caixa abaixou os braços, respirando aliviado.
Dei uma cotovelada nos rins do rapaz à minha frente, e ele caiu, com dor. O outro, acertei com o cabo da arma, o que o fez cair desmaiado.
Peguei minha alface e joguei vinte reais no balcão do caixa.
"Fica com o troco!"
Então, não sei como ou em que momento me viram ou ficaram sabendo notícias minhas, mas eles, os merdas, me pegaram desprevenidos.
Dois homens desceram de um carro, e logo eu estava com um saco de papel na cabeça. Dá para acreditar?! Isso me faz rir.
Me jogaram dentro do carro.
E logo estava eu, em uma sala que mais parecia uma sala de mafiosos italianos, me olhando enquanto me colocavam sentado em uma cadeira de ferro. Ridículos!
Todos me olhavam indignados e surpresos, pois não me viram ter medo, ansiedade, nervosismo ou qualquer coisa do tipo. Eu os olhava curioso... Cauteloso. Haviam uns cinco em pé, e um sentado à mesa, que parecia ser o chefe, pois os outros pareciam aguardar um comando.
"Tenho uma oferta para te fazer", disse o homem que estava sentado.
"Não, obrigado! Prefiro o dinheiro que o governo me dá por pensarem que sou doente." Me levantei, pois os animais nem se quer me amarraram.
Um tentou vir para cima de mim, onde lhe dei um soco no rosto, outro atrás, onde joguei com a perna a cadeira que sentava, o acertando. Me abaixei para desviar de um soco e lhe soquei o estômago. O que estava do lado, dei uma rasteira, girando o corpo em noventa graus. As aulas de defesa que aprendi quando adolescente me saíram muito bem, mas o que me fazia forte não era sentir medo.
Assim que os cinco capangas estavam no chão, me virei de costas para o chefão e comecei a sair.
"Espera, a proposta é boa." Me virei para ele, que acenava para os homens se afastarem.
"Não me interessa, não quero ser um guardazinho de algum político de merda."
"Não se trata de segurança", disse ele, firme.
"E muito menos assassino de aluguel", adiantei-me, voltando a andar alguns passos.
"Somos uma organização secreta. Fazemos a segurança da população, não trabalhamos para o governo ou máfia ou traficantes, na verdade, ajudamos a prendê-los."
Me virei para ele, indecidível.
"O mundo precisa de pessoas como você", continuou ele.
"Como eu?!" Não consegui segurar a gargalhada. "Você não me conhece, não me importo com ninguém."
"Por isso mesmo você é o melhor para a função", afirmou. O encarei nos olhos.
🌼🌼Depois de sua explicação de como tudo funciona, acabei aceitando, não por mim, mas para dar uma vida digna aos meus velhos pais, que trabalharam duro a vida toda. E vocês devem estar pensando: "Então você se importa?"
Bom, eles cuidaram de mim muito bem, não posso reclamar, então, digamos que seja uma retribuição.
Mas o que mudaria minha vida, de fato, seria trabalhar de espião em uma faculdade, com um disfarce de professor, pois, depois de cinco anos de serviço, eles me mandaram vigiar uma turminha de adolescentes rebeldes. E é onde minha vida muda...
— Nem pensar, não fui contratado para servir de babá desses merdas playboyzinhos.
— A situação é grave! Tem um professor, também infiltrado, que vai tentar matar um aluno por depor contra uma facção onde o chefe dele foi preso. — Marcos desvia da mesa e vem em minha direção, pondo a mão em meu ombro. Arqueio a sobrancelha, descontente com seu atrevimento.
Ele raspa a garganta e se afasta, arrumando as golas de seu terno brega.
— Você não tem escolha, começa segunda. Mas antes... — Me viro de lado, o observando. — quero que vá ajudar Samuel em uma missão. — Ele me passa os papéis com as coordenadas e as informações das duas missões.
— Não disse que aceito. — Dobro os papéis e guardo no bolso. Giro meu corpo, olhando para trás. — Ah, diz para o bostão do Samuel que em cinco minutos estarei lá.
Na rua as pessoas sempre me olham, e eu não me importo com esses olhares. Alguns curiosos, outros amedrontados, e alguns, até com interesse sexual.
Tá, ok, eu não sou de ferro, gosto de transar, mas tem que ser "A" mulher. E não me refiro à aparência, e sim confiança. Ela tem que ser confiante, madura e sensual.
Não dormi com muitas, na verdade, não dormi com nenhuma. Somente fazia o que tinha que fazer e depois ia embora, as deixando no hotel, motel ou onde nós pegávamos.
Entro no carro e acelero, passando o sinal vermelho, desviando dos carros, ciclistas e até pedestres que parecem me xingar. "Pouco importa". Quando chego ao meu destino, descendo do carro, eis que meu telefone toca. Encaro o aparelho, fecho a porta e começando a caminhar. É minha irmã.
Tinha que ligar justamente agora? "Merda!"
— Fala rápido!
— Cadê você?! Mamãe está preocupada! Já faz dias que não dá notícias, e hoje é o almoço de apresentação do meu noivo — reclama ela, estridente. Continuo caminhando, até ver Samuel. Aponto o dedo para que espere um minuto. — Sei que não se importa, mas poxa... você disse…
— Estou trabalhando. Mais tarde eu te ligo. Talvez apareça por aí à noite. — E desligo o telefone.
— Cadê os caras? — pergunto ao Samuel.
— Estão chegando com a mercadoria. Aliás, está atrasado três segundos. — Ele mostra no relógio. Não dou a mínima.
Samuel me apresenta os traficantes que irão receber a encomenda, dizendo que sou seu segurança.
— Ele não me parece confiável — falou um dos homens, me olhando enquanto segura o queixo, cheio daquelas tatuagens mal feitas em qualquer esquina.
— Não preciso da sua opinião. — Dou-lhe um soco de punho fechado. Ele segura o nariz. Os outros riem.
De repente, escutamos barulhos de veículos. Faço posição de segurança para Samuel.
Três veículos param à nossa frente, um Opala todo reformado na cor dourada, um BMW azul antigo e um Freemont prata. Quatro homens desceram armados do carro, e um outro, com uma maleta preta de couro, provavelmente com as drogas.
O que li no relatório é que essas drogas não são simples drogas. São substâncias usadas para imobilizar a vítima depois de uma hora, para que ela entre num transe hipnótico. Então, tem que ser parado imediatamente. Ou melhor, pegar quem os fabricou.
Samuel foi encarregado de entrar na favela e seduzir os traficantes para compactuar a "nova onda" da galera. Assim, eles iriam comandar quase todas as facções. Ou seja, íamos usá-los para pegar os fabricantes, e, com um jogo só, pegar dois peixões.
O que não esperávamos, e que, na verdade, acho que Samuel sabia, sim, e por isso me chamou como um resgate, é que a facção que Samuel iludiu, tentaria enganar os caras com dinheiro falso... E o tiroteio começa.
Não sou de usar arma de fogo, nem tenho, mas faço questão de roubar uma assim que o tiroteio aumenta.
— SEUS PUT#S DESGRAÇADOS! — grita o homem mais velho, entrando no carro enquanto dá a ordem: — ATIREM!
Me abaixo e rolo para o lado, batendo em um traficante. Roubo sua arma.
— Ow! Que lado cê tá, mano?! — Me levanto e atiro na cabeça dele. Logo em seguida, pulo no capô do opala e deslizo para o chão, parando de frente ao freemont. Atiro no motorista.
— Idiotas! Deviam andar de carros blindados — desdenho. Rolo para o lado, pois o carro vem reto e para, batendo na parede.
Corro até o tal carro, abro a porta e vejo o homem com a maleta.
— Leva, pode levar, mas poupe minha vida! — implora. Pego a maleta, e ele respira, nem dá tempo de ser aliviado. Dou-lhe um tiro no meio da testa.
Vejo um traficante fugindo, e mesmo que a situação esteja quase sob controle, atiro nele pelas costas.
— Traidor! — grita outro, correndo em minha direção, dando tempo somente para atirar em seu peito.
Olho para os lados, observando... Samuel corre atrás de um que sobreviveu. Para a missão não ser comprometida, não pode haver sobreviventes.
Corro e logo alcanço o homem. Lhe dou um soco e aponto-lhe a arma. Quando puxo o gatilho, a arma falha. As balas acabaram.
O homem sorri e avança em minha direção, me desvio, dando-lhe um soco em seu estômago magro. Ouço um tiro, e logo o homem cai.
— Ei! Estava sob controle! — digo a Samuel, indignado.
— Mas já estamos atrasados. Vamos embora antes que a polícia chegue.
Jogo a maleta para ele e vou embora. Missão cumprida. Agora banho!
🤜🏽🤛🏽
O final de semana chegou e não liguei para minha irmã. Não fui na casa de meus pais. Detesto emoções emotivas, tipo beijos e abraços. Eles já sabem disso, mas fazem questão de me abraçar. E até beijar. Não sinto raiva, tampouco felicidade.
Hoje é sábado. Resolvo sair para dar uma voltinha de carro e tirar a pressão das calças, mas as boates estão muito cheias. Até que noto um barzinho vazio e decido parar.
Estaciono o carro na rua mesmo, ninguém vai ser louco de mexer no meu carro.
Entro no ambiente, até aconchegante, e vejo uma mulher no balcão, balançando a taça quase vazia com a bebida incolor. Está pensativa, olhando para dentro do recipiente.
— Dia ruim! — digo afirmando ao me aproximar.
— Vê se não me enche! — diz ela. A mulher é corajosa... Falar assim comigo, sem nem ao menos me olhar?!
— Dia de merda então... Tá precisando extravasar. Que tal…— A mulher se levanta do banquinho de madeira, joga o dinheiro no balcão e se afasta, me deixando falar sozinho.
Quem ela pensa que é? Pior que essa confiança me fascina...
Seguro o braço dela com força. Ela para, e agora posso vê-la melhor. Algo me atinge em cheio, a beleza dela talvez. — Quem eu quero enganar? Que mulher bonita da porr#! — Levo os olhos até seu decote e logo começo a reparar no resto de seu corpo.
Ela puxa seu braço com uma força defensora, sem dizer nada. Só sai caminhando.
"Que porr# aconteceu aqui?" — Fico de uma forma... Pô, já fiquei excitado algumas vezes por ver alguma mulher gostosa, mas essa… Estou até babando...
Deve ser a seca. Tenho que... Não gosto muito das "mulheres da vida", como as chamo, pois não gosto de chamá-las de putas. Putos somos nós que pagamos por isso.
Mas nunca, nunca permito que me beijem.
A segunda chega. Acordo fazendo um café para despertar. Pego as informações da missão na tal faculdade. Leio com atenção quando... vejo o nome da mulher que preciso salvar. Logo procuro a foto, e... é aí que minha surpresa é maior.
— Puts! — falo comigo mesmo em voz alta. Repouso a xícara na bancada. — É a danada que vai virar minha obsessão.
Uma dúvida surge enquanto leio as informações pessoais: aqui está dizendo que ela tem trinta anos, então, algo aconteceu para estar fazendo faculdade de design só agora. Marjorie Lima... Pelo menos descobri o nome e a idade.
Mais do que nunca, agora me interessei no caso.
O que estão olhando? Eu posso mudar de opinião, não posso?!
Pego as informações, releio e queimo o papel, menos a parte em que está a foto dela, que cortei e coloquei debaixo de uma panela.
Chego na faculdade e encontro Marcos, que abre um sorriso de orelha a orelha.
"Como as pessoas são patéticas!"
Ele estende a mão, me cumprimentando.
— Achei que não viria — cochicha.
— Não me faça desistir. — Desvio dele sem pegar em sua mão. — Onde tenho que ir?
Espero que não me arrependa até o final da tarde, pois já vejo um monte de mauricinhos metidos a ricos e meninas que pensam ser mulheres, me olhando e cochichando pelos cantos.
— Já está tudo combinando — diz ele, se aproximando de mim. — Eu ia ser o professor, mas já que chegou... não precisa ir à sala da diretoria, eu resolvo isso. Pode ir direto na sala do seu aluno.
— Aluna, você quer dizer...
Entro na faculdade e caminho pelo corredor, me direcionando à sala de designe. "Ótimo professor de desenho" eu sou. Sei desenhar?! Vamos ver... Acho que não tenha nada que eu não seja capaz de fazer. Então vamos testar.
— Oi, gatinho! Perdido? — diz uma moça passando ao meu lado.
— Respeito, menina. Poderia ser seu pai —repreendo-a. Ela revira os olhos.
E aí vocês devem estar pensando: "Mas você é bonito assim?" "Como você é?", imaginem como quiserem, como gostariam que eu fosse, não ligo.
Entro na sala. Não há muitos alunos. Varro a sala com meus olhos, procurando a Marjorie... Pelo visto não está.
— Você é o novo, professor? — pergunta um dos alunos. Olho para o garoto negro de cabelo bem raspado.
— Sou!
— E não tem material? "O cara" hein! — diz outro, sorrindo. Um ruivo desta vez.
— Qual é graça? E para saber preciso de material?
A sala inteira gargalha. Os encaro, sério. E eles se calam imediatamente.
Olho a mesa, não tem material. É... vou ter que improvisar.
— Em qual técnicas vocês pararam?
— Proporções! — reconheço a voz. Ela caminha para uma cadeira na terceira fila.
Acho que não me reconheceu. Ela se senta e abre seu fichário, não olha para mim.
— Atrasada! — digo a ela, que arqueia uma de suas sobrancelhas. Seu rosto em total surpresa com minha presença.
Improviso fazendo uma espécie de reconhecimento dos alunos, mantendo o disfarce de professor novato, o que me toma um grande tempo. Hora de passar um pouco do que sei...
— Então vocês já aprenderam — encosto na mesa e cruzo os braços e as pernas — que o design é planejar, ordenar, relacionar e controlar, dito por Emil Ruder, tipógrafo suíço?
— Sim! — muitos respondem em uníssono, menos ela, que ainda me observa.
— Design é conceber cursos de ação destinados a mudar situações existentes em suas preferidas. Palavras de Herbert Simon, economista agraciado com o Prêmio de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel — profiro.
"Será que o assassino já está na escola? Terei que ficar seguindo a aluna em suas aulas?"
— Explicando um pouco sobre proporção, é um dos pilares do design, e não há como aprender a desenhar do zero e masterizar tais técnicas se as proporções não forem seguidas com cautela...
O sinal toca, indicando que a aula acabou. Os alunos começam a sair da sala.
— Marjorie, espere! — diz o garoto de cabelo raspado, que a segue para fora da sala.
Resolvo segui-los também. Estão indo em direção à quadra, quando vejo algo suspeito: um homem de rabo de cavalo segura alguns livros em pé.
Vocês devem estar se perguntando: "O que tem isso? Não é estranho."
O estranho é que o livro está em pé, virado de lado, e não de costas ou de frente, com o braço curvado. O contrário do que observei na maioria dos professores aqui.
Empurro Marjorie para longe ao ouvir um zunido passando de raspão em minha orelha. Acho que só eu ouvi. Com certeza foi um disparo de arma com silencioso na ponta.
— SEU IDIOTA! — grita ela. Mostro o buracao na porta do armário. — O que é isso? — pergunta, já abaixando o tom de voz.
Me viro em direção ao homem, mas ele sumiu. Pelo menos sei quem é.
Pego Marjorie pelo braço.
— Precisamos sair daqui! — aviso. Ela entende e me acompanha.
— O que houve? Onde vocês vão? — pergunta o garoto de cabeça raspada. Marjorie olha para trás, em sua direção.
— Joel, depois te ligo! — grita ela. A encaro, negando com a cabeça.
Já do lado de fora, praticamente enfio ela dentro do carro.
— Ow, seu estúpido! Está me machucando! — grita, irritada. Entro no carro e dou partida.
— Ele foi a mando de Joaquim? Ele já não foi preso? — Ela respira fundo. — Nunca mais vou ter uma vida normal? — Ela me encara, revoltada. Fico calado.
— Por que não responde, idiota?
— Cala a boca, você fala demais. — A encaro brevemente. — Você deveria saber que nunca mais terá uma vida normal, a não ser que se finja de morta.
E pela primeira vez ali, ela me olha assustada, e não raivosa.
Eu sei toda a história dela sobre o tal depoimento, mas somente isso. Então, não a conheço de fato. Mesmo assim, me atrevo a dizer que ela parece ser ingênua, apesar de arredia.
Viro o carro de uma vez ao ver que estamos sendo seguidos. Ajeito o retrovisor, e ela olha para trás, se abaixando em seguida, frustrada.
Escuto um tiro no meu carro.
— Merda! — grita ela, que se abaixa mais, tapando os ouvidos.
Viro o carro, girando em cento e oitenta graus, ficando de frente para o carro que nos seguia e acelero. Vou acabar com meu carro. "Merda!", isso não estava em meus planos.
— O que tá fazendo, seu...!
— Coloca o cinto! — ordeno, já colocando o meu.
Sigo em frente, acelerando, suando frio. Não vou parar. Fixo meus olhos no carro à minha frente e aperto o volante. O cara desvia por um triz, mas atira em minha direção, pegando de raspão em mim.
— Oh, meu Deus! — ela grita, ainda se mantendo abaixada.
Por que as pessoas têm sempre que chamar por ele nessas horas? Ele não vai resolver nada no momento. Se morrermos agora, ele somente decidirá se merecemos o paraíso. É assim que penso.
Jogo o carro na direção dele quando fica paralelo ao meu. Ele bate no poste, e acelero, saindo dali. Provavelmente ele não morreu.
***
Sigo por uma estrada que vai em direção a uma cidade de Minas Gerais. Ela continua quieta. Paro em um motel de estrada, já estou com fome, e preciso de um banho.
Todo o caminho até aqui, ela ficou em silêncio. Por algumas vezes até achei que estivesse dormindo, mas estava só em seu silêncio.
— O quarto mais barato, por quatro horas — falo ao telefone na portaria. Ela cruza os braços e me olha com ódio, como se eu fosse o culpado.
O portão abre, e sigo com o carro até a garagem do quarto.
Abro a porta e desço... PUT# que pariu! Meu carro está em um estado deplorável.
Sigo para o quarto e abro a porta, olhando para trás. A mulher ainda se mantém no carro.
— Não vou descer! — diz ela, marrenta. Dou de ombros. Que se dane se não quer.
Entro, abro o frigobar e pego uma cerveja. Tomo com vontade, preciso relaxar. Pego o cardápio e peço comida só para mim. E não me olhem assim, como se eu tivesse obrigação de alimentá-la.
Não, eu já salvei a vida dela. Vocês nem imaginam o prejuízo no meu carro, e ainda tem minha família, que agora corre riscos.
Ligo para Marcos antes de ir para o banheiro.
— Jones, que merda você fez? Era para salvar a garota e matar o assassino! E não fugir com ela! A polícia que se encarregaria de protege-la de novo.
Rio sem querer. Tá bom... Como se a polícia se importasse. Eles pararam com proteção dela só porque o cara já estava na cadeia. Nem se importaram com o fato de que ele poderia mandar mata-la por vingança.
— Quero que proteja meu pais...
— Já estamos cuidando disso, mas trate de arrumar a merda que fez. Devolva ela e mate o assassino.
Desligo o telefone, me jogando na cama. Suspiro e passo a mão no cabelo. Ela entra no quarto.
Me sento, e ela se senta ao meu lado.
— Acho que começamos errado... Obrigada. — Ela estende a mão para mim.
— Você começou errado! — Me levanto e entro no banheiro.
Tiro minhas roupas e entro no boxe, deixo a água do chuveiro me molhar. Pego a porcaria do sabonete desse motel barato e passo pelo corpo. O dia foi cheio. Fecho os olhos... Marjorie vem em meus pensamentos, cenas da noite em que a vi pela primeira vez. Meu "amigo" desperta, animado. "Isso e hora?!"
Fecho o chuveiro, repousando o antebraço na parede, a cabeça no braço, passando as mãos pelos cabelos.
Ouço a porta sendo aberta, pois não tranquei. Marjorie me encara, toda cheia de si. A encaro também, sinto o tensão. Ela começa a tirar suas roupas, tão lentamente que me hipnotiza. Não consigo tirar os olhos dela. Marjorie não olha para meu "amigo", olha em meus olhos, que se desviam, passando por todo seu corpo.
— Se me der licença, preciso de um banho também. — Ela se aproxima de mim e abre novamente a ducha. Tiro os braços da parede, me virando para ela.
Que perfeição de mulher... Entretanto, não pude deixar de notar suas cicatrizes. Mais cicatrizes nela do que em mim.
Passo o dedo em uma delas, perto do seu coração. Parece ser de uma cirurgia. Ela não desvia seu olhar, me encara, firme, respirando controlamente. Ou pelo menos tentando.
Agora tenho certeza, mexi com ela também. Passo as pontas dos dedos em outras cicatrizes, pairando em uma perto do ombro. Levo os dedos para seu pescoço, e quando seguro, ela coloca suas mãos sobre a minha e levanta o rosto, fixando seus olhos brilhantes nos meus, mordendo o canto da boca. E que homem resiste a isso?
Puxo-a para um beijo. Nossos corpos, a milímetros de se tocarem, mas já sinto sua pele quente sobre a minha.
Transamos debaixo do chuveiro, a água quente deixando nossos corpos ainda mais fervilhantes. Não sou um homem de sentimentos, mas é disso que gosto. Essa transa casual, mas quente, cheia de interesses deliciosos um dando prazer ao outro. Evito pensar sobre estar errando em fazer isso com ela. Logo ela. Trabalho... Meu corpo já não responde à minha razão. E que transa maravilhosa...
[...]
Me enrolo na toalha, e ela ainda me obeserva, lavando o próprio corpo, limpando o nosso líquido de prazer misturados.
Pego minha roupa e vou para o quarto. Sigo até a roleta, pego a comida que pedi e me sirvo.
Reparo nela quando entra no quarto, já vestida. Ela se deita.
— Você já amou? — pergunta ela, repentinamente. Por que ela está me perguntando isso? Sentiu algo?
— Sinto muito, não consigo sentir isso. Além de saber o significado da palavra, não sei como é isso — respondo, sem encará-la.
— Você não perde nada, é decepcionante — lamenta. Me viro em sua direção, ainda sentado, apenas com a toalha na cintura.
— O que tá comendo? — Ela estica o pescoço para meu prato.
Encaro minha refeição, e alguma coisa me faz perder a fome. Entrego o prato para ela.
Me levanto e começo a vestir minha roupa. Ela come sem nenhuma formalidade.
Quando me viro de costas, colocando a camiseta, sinto o toque de sua mão em meu ombro, onde levei o tiro de raspão, um arranhão. Me afasto e acabo de descer a blusa, encarando-a. Ela não parece arrependida.
— Temos que ir, tenho que encontrar seu assassino e eliminá-lo.
— Mas não corremos risco? E se mandarem outro? — pergunta ela, voltando a comer.
Então aí eu compreendi. Eles, Marcos, a organização, estavam usando ela para chegar ao mandante e eliminá-lo. Nunca foi para salvá-la.
— Filhos da mãe! — profiro. Ela se levanta da cama.
— O que foi?
— Vamos embora daqui, agora! — Pego ela pela mão e a puxo, rápido, arrastando-a até a saída.
— O que vai fazer?
— Vamos caçar! — digo, fazendo com que ela arregale os olhos assim que arranco com o carro, dando ré e cantando pneu..
( continua...)
querem o resto da história hihih ? ela está no final
do livro almas Perdidas.😘