Feitiço Culinário
Capítulo 1: Feiticeiro?
No céu azul, aves traçavam curvas graciosas, alheias à tentativa das crianças que, com os seus estilingues de madeira, procuravam atingi-las. As risadas e os gritos de entusiasmo ecoavam pela rua, misturando-se ao burburinho do comércio. Os vendedores chamavam a atenção dos passantes, enquanto barracas coloridas exibiam frutas frescas, especiarias e tecidos vibrantes.
Apesar da movimentação intensa, o contraste entre a leveza do voo das aves e a energia inquieta das crianças tornava a cena curiosamente harmoniosa, como se a vida ali pulsasse em perfeito equilíbrio.
Comerciante
Venham conferir! Novos produtos fresquinhos!
Exclamava a senhora, a sua voz firme e carregada de experiência ecoando pela rua movimentada. Ela segurava uma galinha que, embora fosse quase metade do seu tamanho, debatia-se freneticamente em busca de liberdade. As penas do animal esvoaçavam enquanto ele lutava contra o aperto seguro da mulher, mas seus músculos fortes, moldados por anos de trabalho duro, não cediam.
Ao redor, algumas crianças riam da cena, apontando para a galinha desesperada, enquanto os adultos, mais acostumados ao dia a dia do mercado, apenas seguiam com as suas compras. A senhora, com um sorriso no rosto, olhava para o próximo cliente, segura de que o seu entusiasmo e habilidade garantiriam mais uma venda naquele dia agitado.
Aproximo-me da barraca da senhora, intrigado com a cena. A galinha ainda se debatia nas suas mãos calejadas, mas ela parecia lidar com a situação com uma naturalidade quase cômica, como se fosse apenas mais um dia no mercado. O seu olhar atento logo se volta para mim, e um sorriso astuto aparece no seu rosto.
Comerciante
Interessado em levar uma galinha fresca, meu jovem?
Sem demonstrar qualquer sinal de esforço enquanto segurava o animal rebelde ela perguntou.
Ao redor, o cheiro de temperos e frutas misturava-se com o som das negociações e risadas. Olhei para a galinha, que me encarava como se eu fosse o responsável por sua desventura, e hesitei antes de responder.
Éden
Na verdade, só fiquei curioso... Ela parece ser uma lutadora.
A senhora ri alto, balançando a cabeça.
Comerciante
Lutadora é pouco! Essa aqui escapou do cercado três vezes hoje. Mas não se preocupe, é assim que sabemos que estão saudáveis!
Mesmo sem intenção de comprar, ver aquela galinha despertou em mim uma memória que veio acompanhada de um leve ronco no estômago. Imaginei um frango assado, dourado e suculento, saindo do forno com aquele aroma irresistível que invade a casa inteira. Já visualizava o prato: o frango bem temperado ao centro, acompanhado de arroz soltinho, feijão fumegante e uma farofa crocante, com pedaços de bacon e cebola dourada.
Por um instante, quase pude sentir o sabor na boca, como se estivesse sentado à mesa de um almoço de domingo em família, onde as conversas eram animadas e a comida parecia feita com doses extras de carinho. O pensamento aqueceu o meu coração e me fez reconsiderar.
Éden
Quanto custa essa galinha?
Perguntei mais para matar a curiosidade do que por real intenção de comprar. A senhora ergueu uma sobrancelha, percebendo o meu interesse, e respondeu com um tom confiante.
Comerciante
Baratinho, meu filho. E te garanto: nenhum frango de granja supera o sabor dessa aqui. Criada solta, comendo do bom e do melhor!
Olhei novamente para a galinha, que parecia ter desistido de lutar, e pensei que talvez fosse mesmo uma boa ideia leva-lá, mas além de não ter dinheiro sequer tenho uma casa onde poderia assa-la.
Dei um passo para trás, assustado com o grito repentino da galinha, que parecia mais astuta do que eu esperava. A senhora riu, um sorriso divertido, e então me olhou dos pés à cabeça, com uma curiosidade explícita.
Comerciante
Você é um feiticeiro, não é? Faz tempo que não vejo um feiticeiro com afinidade com a natureza.
Sou pego de surpresa por sua indagação
Ela riu de novo, dessa vez como se a resposta fosse óbvia.
Comerciante
Todos os feiticeiros têm características do seu elemento. No seu caso, esses cabelos e olhos verdes entregam tudo. É claro que é um feiticeiro da natureza.
Olhei ao redor, tentando processar a informação, e notei alguns jovens que passavam pelo mercado. Alguns tinham cabelos e olhos em tons de vermelho vibrante, enquanto outros exibiam tons alaranjados, todos com uma intensidade peculiar que eu nunca tinha reparado antes.
Comerciante
Como pode um feiticeiro não saber algo tão básico?
Continuou ela, inclinando-se levemente.
Comerciante
Por acaso é de outro mundo?
Senti um frio na espinha. Ela havia acertado em cheio. O meu sorriso saiu meio torto, e tentei disfarçar o desconforto.
Éden
Não! Imagina... É claro que eu sabia! Haha!
Balbuciei, forçando uma risada nervosa.
A senhora arqueou uma sobrancelha, e com aquele sorriso carismático voltou a anunciar os seus produtos como se nada tivesse acontecido.
Eu realmente não sou deste mundo. Costumava ser apenas um estudante no meu antigo mundo. No dia em que tudo aconteceu, eu havia acabado de voltar da faculdade. Estava cansado, mas havia um motivo especial para comemorar: o meu TCC havia sido aprovado.
Decidi fazer um churrasco, algo simples, mas satisfatório. Não convidei os meus amigos porque a maioria tinha viajado, e a minha família mora longe. Era só eu, a fumaça da churrasqueira e o som da carne chiando sobre as brasas na pequena varanda do meu apartamento.
Jhon
Hummm~ Essa carne está no ponto!
Exclamei, enquanto preparava o meu prato com carne, farofa, vinagrete e aquele molho caseiro que combinava perfeitamente com a carne.
Sentei-me na cadeira em frente a churrasqueira com o prato em mãos e um sorriso no rosto.
Jhon
Não há nada mais perfeito que isso!
A cada mordida, eu me permitia saborear lentamente, apreciando o momento. Não havia som além do crepitar das brasas e o vento suave da noite. Era como se tudo estivesse em equilíbrio.
Jhon
Tem algo melhor do que comer um bom churrasco?
Pensei comigo mesmo, antes de sentir meu celular vibrar no bolso. Peguei o aparelho para verificar. Era uma notificação de um aplicativo de leitura.
[O príncipe não consegue comer!]
{O capítulo final foi publicado.}
Jhon
Essa obra já foi concluída? Realmente o tempo passou rápido.
Murmurei, tocando na notificação para começar a leitura.
Essa história havia sido indicada por uma amiga da faculdade. Não era exatamente extraordinária, mas as cenas de luta eram impressionantes. A premissa girava em torno de Leon, um príncipe que havia perdido o paladar após ser envenenado repetidamente por sua própria mãe. Ele desenvolveu aversão a qualquer comida, o que quase o levou à morte. A sua sobrevivência, no entanto, devia-se à sua linhagem como descendente de dragões, o que também era o grande motor da trama.
Admito, enquanto mastigava mais um pedaço de carne.
No fim, Leon conseguiu sua vingança, mas ficou sozinho. Era como eu imaginava, mas ainda assim não pude evitar um suspiro frustrado.
Jhon
Que final meia boca é esse?!
Balanço a cabeça em desaprovação.
Fecho o aplicativo e coloco o celular no bolso. Voltei o meu olhar para a carne ainda quente no meu prato, o cheiro delicioso me reconfortando. Por um momento, deixei a irritação de lado e sorri.
Jhon
Pelo menos o meu final hoje é bem melhor do que o dele.
Peguei outro pedaço de carne, agora mergulhado no molho, e dei uma mordida generosa. A combinação de sabores me fez esquecer o desapontamento com a história, lembrando-me que, às vezes, a simplicidade da vida real é mais satisfatória do que qualquer trama elaborada.
Enquanto mastigava, o som do vento agitando as árvores lá fora era a única coisa que quebrava o silêncio. A noite parecia perfeita, mas havia algo estranho no ar. Não sabia dizer o que era, mas uma sensação de inquietação começava a se formar no fundo da minha mente.
Os meus pensamentos foram interrompidos por um som vindo da porta, batidas rápidas e apressadas. Mas não estou esperando ninguém, e já é tarde.
???
P.Por favor, me ajude! Alguém, por favor!
A voz parecia ser de uma garota, mas por um momento, hesitei. E se fosse algum tipo de golpe? Ninguém bate à minha porta assim a essa hora, mas esse tom de desespero é real.
Sentindo um aperto no peito vou até à porta, decidido a ver ao menos o que está acontecendo. Quando abri a porta, ela entrou como um raio. Rápidamemte fechei a porta e olhei para ela. Os seus cabelos eram verdes, longos e ondulados, e os seus olhos eram âmbares, quase dourados, essas roupas e os chifres como os de veado... uma fantasia? Um cosplay? Então vi o sangue que escorria dos seus braços e da região do abdômen que manchava o chão.
Jhon
E.Ei, você está bem? Precisa de ajuda e de um hospital, ou vai acabar morrendo aqui...
Ela parecia fraca, seus olhos se voltaram para mim com um medo intenso. Nesse momento, outra batida na porta.
???
Eles chegaram, o que eu faço?
Ela resmungou, tremendo de medo.
O que raios está acontecendo? Olho para ela, sentindo uma mistura de preocupação e frustração com o som insistente das batidas.
Jhon
Chega vamos para o hospital!
Seguro o seu braço, pronto para agir, quando ela gritou tentando soltar seu braço.
Ignorei seus avisos, abrindo a porta. E aí que vi a sombra negra pairando no ar. Dois pontos brancos brilhantes, que eu julgava ser os olhos daquela coisa.
Jhon
Isso... Isso não pode ser real.
Antes que pudesse reagir, uma lâmina negra atravessou o meu estômago. A dor foi insuportável, e o gosto metálico do sangue invadiu minha boca.
Resmunguei, e minha visão começa a falhar.
Antes de cair, vi correntes douradas surgindo do nada, atravessando a sombra fazendo-a desaparecer em uma explosão de energia. Elas vinham da garota? Eu não sei mais o que pensar.
Sem forças desabo nos braços da garota.
???
A.Ah não... O que eu faço...?
Ela murmurou, atordoada, enquanto olhava para mim, claramente sem saber o que fazer.
Aquela sensação de estar prestes a morrer me envolveu. Eu não queria, não agora. Eu finalmente tinha terminado o meu TCC, estava comendo o meu churrasco... por que agora?
Jhon
Eu realmente... não....
Balbucio sentindo os braços frios da morte me envolver. É assustador. A minha visão está escurecendo.
Nesse momento, uma espécie de escama negra surgiu em suas mãos, reluzindo com um brilho dourado. Os seus olhos brilharam de forma similar. O que ela está fazendo?
E então a escuridão tomou conta da minha visão, não sentia mais meu corpo, não havia frio, nem calor apenas um enorme vazio.
Acordei de repente, com uma respiração ofegante deitado no chão de um beco escuro e úmido. O meu corpo, embora fosse meu, era diferente, mais leve, mais estranho. Levanto com dificuldade como se estivesse num corpo estranho.
Olho ao redor em busca da garota... onde ela está?!
Capítulo 2: Legumes e frutas parte 1
As ninfas batiam suas asas com toda a força que tinham, o vento que geravam fazendo as folhas das árvores ao redor se agitarem como se fossem presas de uma tempestade. Elas se aproximavam do dragão negro adormecido em seu grandioso castelo isolado, uma fortaleza de pedras escuras que parecia se misturar com a própria noite.
O dragão, uma criatura imponente e antiga, dormia profundamente, seus grandes olhos fechados, como duas lâmpadas apagadas. No entanto, quando uma das ninfas soltou um grito de desespero, ele imediatamente abriu os olhos e suspirou um ar quente, fazendo as ninfas retrocederem, suas asas tremendo, temerosas da força daquele sopro.
Dragão
O que querem de mim, pirralhas?!
Sua voz soou como o estrondo de trovões, reverberando por todo o castelo.
A mais velha das ninfas, a líder do grupo, se pôs à frente. Ela era uma figura imponente, com seus olhos sábios e seu porte gracioso, mas forte como uma montanha. Com um movimento firme, ela colocou os pés no chão, desafiando a autoridade do dragão. Aos poucos, as outras ninfas a seguiram, embora de maneira desajeitada, ainda inseguras, o que causou um leve roçar de suas asas no ar. A ninfa mais velha abaixou a cabeça e, com uma reverência profunda, ajoelhou-se. Suas asas, grandes e majestosas, se curvaram atrás de seu corpo, como um sinal claro de respeito à grande besta.
O dragão, com suas escamas reluzentes e olhos de âmbar que pareciam carregar séculos de sabedoria, olhou para ela com um ar de impaciência. Seus chifres, imponentes como os de um cervo, eram adornados com flores eternas, flores que não murchavam, que resistiam ao tempo como ele. Ele fez um gesto apressado com a cabeça, pedindo para que a ninfa se levantasse e falasse logo.
Dragão
O que é tão urgente, pequena criatura?
Grunhiu o dragão, seu tom de voz misturando curiosidade e tédio.
A ninfa de pele bronzeada, com longos cabelos verdes e ondulados que tocavam o chão, ergueu os olhos e, com uma voz que carregava a melancolia de gerações.
???
Por favor, meu senhor, o último descendente dos dragões... ele irá morrer dessa forma. Ele precisa de sua ajuda.
O dragão a observou em silêncio, seus olhos refletindo uma calma assustadora. Um descendente do dragão em perigo? Pensou ele. Deveria ser fraco, um filhote, uma criatura insignificante. Para ele, filhotes fracos mereciam a morte. Ele estava acostumado à sua própria força, ao seu poder incomparável. Mas algo na maneira como a ninfa falou o fez hesitar.
A ninfa, vendo o olhar desconfiado do dragão, continuou, sua voz tremendo levemente.
???
Ele é o último da linhagem pura, meu senhor. A linhagem que, dizem, carrega a verdadeira essência dos dragões. Ele precisa de sua ajuda, ou todos nós, seus descendentes, seremos extintos.
O dragão permaneceu em silêncio por longos minutos, seus olhos dourados fixos nela, refletindo a luz do fogo de seu próprio ser. Finalmente, um brilho de compreensão atravessou sua expressão e ele soltou um leve suspiro, como se o peso de todas as vidas passadas tivesse passado por sua mente. Com um gesto quase imperceptível, ele retirou uma das escamas de seu próprio corpo, uma escama que parecia brilhar com um brilho suave e misterioso. Ele a entregou à ninfa.
Com uma voz mais suave, mas ainda cheia de autoridade contínua.
Dragão
Leve isso. Use-a com sabedoria. E que ele saiba como carregar o peso da linhagem.
A ninfa pegou a escama com mãos trêmulas, seu coração batendo rápido de gratidão. Ela se curvou mais uma vez, quase tocando o chão com a testa.
???
O... Obrigado, meu senhor!
O dragão abaixou a cabeça, fechando os olhos novamente. Ele estava cansado, como se a simples ideia de acordar tivesse drenado suas forças.
Dragão
Vá logo. Mas cuidado com os viajantes. Eles não gostam quando interferem em outros mundos. Eles serão mais um obstáculo no seu caminho.
Uma aura negra envolveu a ninfa, e ela sentiu o peso do poder do dragão em suas mãos. A escama parecia pulsar, como se tivesse vida própria. Ela a segurou com firmeza, determinada a cumprir sua missão.
???
Eu farei o que for necessário, meu senhor.
Ela exclamou, sua voz agora cheia de convicção, antes de desaparecer nas sombras, a aura negra envolvendo-a por completo.
Abri meus olhos assustado, com a respiração ofegante, como se tivesse corrido uma maratona.
Éden
Mas que sonho foi esse?
Resmunguei, passando a mão na cabeça, sentindo uma leve dor. Olhei para a mesa onde tinha pegado no sono. A biblioteca estava silenciosa, e o céu lá fora, que antes estava escuro, agora estava claro, como se o tempo tivesse passado sem que eu percebesse.
Eu vim para a biblioteca com o intuito de descobrir mais sobre esse mundo. Passei a noite toda lendo, e nem sei exatamente quando fui dominado pelo sono. Só sei que foi o suficiente para que o céu mudasse.
Na maioria das novels que eu li, os protagonistas recebiam um manual de instruções para guiá-los, mas eu... bem, eu só tenho um rostinho bonito e a informação vaga de que sou um feiticeiro que, para ser honesto, não sabe como lançar um feitiço. Esse mundo é tão diferente da Terra. Aqui, há magia, feiticeiros, magos, berserkers e monstros. E, quanto mais leio sobre ele, mais parece que estou dentro de uma das histórias que eu lia antes de... bem, de morrer.
Éden
E se eu realmente entrei nessa história...
Murmuro para mim mesmo, tentando processar tudo que li até agora.
Vamos ver... O príncipe foi envenenado durante grande parte da sua infância pela própria mãe, criando uma aversão a qualquer tipo de comida. Aos 18 anos, foi enviado para a linha de frente da guerra nas fronteiras, e, apesar de ter vencido, o seu estado psicológico ficou ainda mais instável. Aos 23 anos, ele voltou ao reino, onde a sua mãe governava no seu nome, e a matou. Depois, eliminou os nobres corruptos e, no fundo do poço, dizimou toda a população do seu país. Isso aconteceu no ano de 1279, e, segundo os registros mais recentes, estamos no ano de 1278, ou seja, o príncipe está voltando da fronteira, e provavelmente está se preparando para matar todos.
Se ele fosse uma criança, até daria para tentar interferir, mas como diabos vou mudar a trajetória de um adulto traumatizado? Se ao menos a autora tivesse se dado o trabalho de dar-lhe um par romântico, talvez isso o impedisse... mas nem isso. Pior ainda... Eu não faço ideia de como encontrá-lo.
Éden
Desisto, eu aceito o meu fim.
Suspiro, derrotado. Tudo o que posso fazer agora é ganhar o máximo de dinheiro possível e tentar fugir desse lugar o quanto antes. Isso é o que vou fazer.
Levanto da mesa, observando os livros espalhados, enquanto tentava organizar as minhas ideias. Se eu realmente estivesse dentro de uma história, então as probabilidades de um final feliz eram quase nulas. Quem sabe eu não conseguisse mudar as coisas, mas para isso eu precisaria de mais informações... mais poder... e, o mais importante, uma forma de sobreviver ao caos iminente.
Talvez eu tivesse que criar meu próprio caminho, mas... para onde eu iria? Como sobreviver em um mundo onde tudo parece conspiração e tragédia?
Antes que minha mente entrasse em colapso, fechei meus olhos reparei fundo e voltei a observar os livros de feitiços espalhados sobre a mesa. Primeiramente, eu precisava desenvolver minhas habilidades mágicas. Depois, dinheiro. E foi nesse momento que meu estômago começou a roncar, como se o próprio corpo fosse me lembrar de que antes de qualquer coisa, eu precisava comer.
Suspirei, guardando os livros de volta no lugar e levando apenas um que falava sobre feitiços da natureza. Era o mais adequado para um iniciante como eu.
Saí da biblioteca e fui em direção à rua do comércio. O cheiro de alimentos preparados no fogo me atraiu, e parei diante de uma barraca que vendia churrasco. Ah, que fome!
Comerciante
Vai querer quantos?
O vendedor perguntou com um sorriso simpático. Sorria de volta, meio sem jeito. Não tinha dinheiro para pagar. Estava prestes a dar meia volta, quando, surpreendentemente, uma senhora que eu tinha visto algumas vezes antes se aproximou. Ela pagou pelo meu prato de carne.
Disse, sorrindo, ainda sem acreditar que alguém me ajudaria dessa forma.
Comerciante
Por nada, meu jovem. Coma e fique forte
Ela respondeu, antes de seguir seu caminho. Voltei minha atenção para o pequeno prato com um bom pedaço de carne. Não havia nenhum acompanhamento, nem arroz, nem feijão, nem farofa... só carne. Comi um pedaço e logo sorri, animado. A carne estava deliciosa, e o molho que acompanhava estava perfeito, mas a falta de um acompanhamento me deixou com uma leve sensação de que algo faltava.
Por sinal, eu não vi quase nenhuma barraca com frutas ou verduras. Estranho. Por que isso?
Éden
Senhor, sabe me dizer onde vendem frutas ou legumes por aqui?
Perguntei ao vendedor, ainda mastigando um pedaço de carne. Ele me olhou surpreso com a pergunta, mas logo sorriu e respondeu.
Comerciante
Bom, o senhor está fazendo compras para uma família nobre?
Neguei com a cabeça, um pouco curioso com a suposição.
Comerciante
Ah, entendi... Bom, há uma loja no fim da rua que vende essas coisas.
Ele apontou para o final da rua.
Terminei de comer o prato de carne e me levantei. Com um leve aceno de cabeça para o vendedor, segui na direção indicada, ainda pensando na falta de alimentos frescos nas barracas.
Capítulo 2: Legumes e frutas parte 2
Abro a porta da loja e me deparo com uma grande variedade de frutas e legumes, todos muito maiores do que os convencionais da Terra. Algumas frutas pareciam tão frescas e vibrantes que até pareciam brilhar, enquanto outras já haviam passado do ponto, exibindo manchas escuras e um cheiro ligeiramente fermentado.
Me aproximo de uma bancada e pego uma fruta vermelha e arredondada, curiosamente analisando-a. Logo noto o preço marcado: 42 moedas de prata. Franzi o cenho. Tudo no mercado central estava por volta de 20 moedas no máximo. Por que está tão caro?
Antes que pudesse pensar mais sobre isso, senti os olhares do vendedor cravados em mim. Ele era um homem robusto, de cabelos grisalhos e expressão severa. Seus olhos avaliavam cada movimento meu com desconfiança.
Vendedor
Ei, se não pode pagar, apenas saia. Vamos, vamos!
Disse ele, aproximando-se com os braços cruzados, sua voz carregada de irritação.
Olhei para ele, surpreso pela hostilidade. O que há de errado com ele? Ele é algum tipo de nobre para agir assim? E por que ele parecia tão incomodado com minha presença?
Respondi com um tom neutro, erguendo as mãos em um gesto de rendição antes de sair.
Lá fora, me encostei a uma parede e abri o livro de feitiços que trouxe da biblioteca. Folheei algumas páginas até encontrar o capítulo sobre crescimento e cultivo de plantas. Uma ideia começou a se formar em minha cabeça.
Éden
Se as frutas e legumes são tão caros, e eu preciso praticar magia da natureza... por que não unir o útil ao agradável?
Um sorriso malicioso surgiu em meus lábios. A ideia era simples e ao mesmo tempo brilhante. Eu poderia cultivar minhas próprias frutas e verduras usando magia, vendê-las a preços acessíveis e, com isso, ganhar muito dinheiro!
Meu coração acelerou com a empolgação. Claro, eu precisaria praticar os feitiços antes, mas não parecia impossível. Além disso, seria uma oportunidade perfeita para explorar as minhas habilidades.
Éden
Quem sabe, com sorte, eu consiga até descobrir mais sobre como funcionam as magias aqui...
Fechei o livro, decidido. O próximo passo seria encontrar um lugar tranquilo para praticar e algumas sementes para começar minha experiência. O futuro podia até ser incerto, mas, por ora, eu tinha um plano.
Levanto as mangas da minha roupa e respiro fundo. Segundo as instruções do livro, tudo o que preciso é respirar profundamente, fechar os olhos e visualizar o que quero. Parece simples, mas magia demandava energia, concentração e, claro, prática.
Fecho os olhos e imagino as sementes que plantei crescendo, se transformando em grandes macieiras carregadas de frutos vistosos. Sinto um leve formigamento nas palmas das mãos, como se algo estivesse fluindo de dentro de mim. A sensação era estranha, mas ao mesmo tempo... boa
Quando abro os olhos, meu coração quase salta do peito. Três macieiras enormes estavam diante de mim, repletas de maçãs vermelhas e brilhantes, como se fossem tiradas de um sonho.
Um sorriso de pura alegria se forma em meu rosto, mas a euforia é rapidamente substituída por um cansaço repentino. Minha visão começa a turvar, e sinto meu corpo vacilar.
Éden
Será que eu exagerei?
Apoio-me em uma das árvores para não cair. Finalmente, desabo no chão, recostando-me ao tronco de uma das macieiras. Minhas mãos tremiam como se eu tivesse corrido quilômetros sem parar. Eu estava exausto, como se toda a energia do meu corpo tivesse sido drenada.
Éden
Acho que eu realmente exagerei...
Murmuro, fechando os olhos por um instante, tentando recuperar as forças.
Minha mente começava a flutuar entre o consciente e o inconsciente quando sinto algo quente e úmido lambendo meu rosto. Abro os olhos lentamente, e meu coração quase para ao me deparar com um enorme lobo branco.
Ele era magnífico. Seus pelos eram de um branco puro, brilhantes sob a luz do sol, e seus olhos tinham um tom de verde tão profundo que parecia guardar segredos de uma floresta antiga. Ele olhava para mim com curiosidade, sem hostilidade.
A minha voz falha. Instintivamente, estendo a mão para tocar sua cabeça. Ele não recua. Pelo contrário, fecha os olhos, como se apreciasse o carinho.
Só então percebo o real tamanho dele. O lobo era imenso, com pouco mais da metade da minha altura. Um frio percorre minha espinha, e tento me arrastar para trás, mesmo sem forças. No entanto, ele se deita calmamente e repousa a cabeça sobre o meu colo.
Seu gesto é tão inesperadamente gentil que meu corpo relaxa por reflexo. Era como se ele estivesse tentando me acalmar, me dizendo que não havia nada a temer.
Éden
O que... o que foi isso?
Sussurro, enquanto toco novamente sua cabeça, ainda incrédulo.
De repente, diante dos meus olhos, o lobo começa a diminuir de tamanho. Seus pelos permanecem brilhantes, mas agora ele parecia mais um cachorro grande, cabendo perfeitamente no meu colo.
Éden
Isso não faz sentido...
A minha voz sai fraca. Minha cabeça começa a doer, uma dor pulsante que parece ecoar dentro do meu crânio. Tudo ao meu redor parecia girar.
Éden
Só... só um pouco de descanso...
Murmuro, fechando os olhos novamente enquanto minha consciência é tomada pelo sono.
A ninfa de pele morena, longos cabelos verdes que caíam como cascatas de folhas por seus ombros, olhos âmbares brilhantes e lindos chifres de cervo floridos, caminhava pelas ruas da cidade, sem ser notada como se estivesse envolta num manto de invisibilidade.
Ela não sabia exatamente o que procurava; tudo o que tinha era a escama negra, entregue pelo Dragão Negro, que deveria guiá-la até algo, ou alguém, capaz de salvar o príncipe dragão.
Por dias, vagou sem rumo, confiando apenas na vibração ocasional da escama para orientá-la. Sua jornada era solitária e incerta, até que, certa noite, foi interrompida por uma presença opressora.
Diante dela, emergiu um monstro de aura negra, sua silhueta envolta em trevas tão densas que apenas dois pontos brilhantes, semelhantes a olhos, podiam ser vistos.
???
Viajante identificada.
A voz ecoou como um estrondo, grave e impiedoso. Assustada, a ninfa deu alguns passos para trás, mas não podia ignorar o que estava diante dela: uma besta viajante, criatura enviada para exterminar qualquer ser que cruzasse entre mundos. A lenda dizia que essas criaturas eram implacáveis, dotadas de lâminas afiadas que podiam ceifar até os seres mais poderosos.
O monstro soltou um rugido aterrorizante, que fez o chão tremer. A ninfa correu, seu coração bateu como tambores de guerra. No entanto, o monstro foi mais rápido. Lâminas rasgaram o ar ferindo os seus braços e perfurando seu abdômen. Apesar do grito de dor ela não parou fugindo para dentro de um dos prédios.
Subiu as escadas desesperadamente, enquanto sangue escorria por suas feridas. Ela sabia que o monstro era obrigado a seguir as leis do mundo e, por isso, não poderia atravessar paredes ou destruir o edifício diretamente. Porém, a cada momento, ele se aproximava mais.
Sem outra opção, bateu freneticamente em uma das portas.
???
P.Por favor alguém me ajuda! Por favor...
Após longos segundos de silêncio, a porta se abriu. Um humano jovem, com olhos confusos e expressão preocupada, apareceu. Ele parecia hesitante, mas ao ver os ferimentos da ninfa, a deixou entrar.
Tentando recuperar o fôlego. Ela mal teve tempo de avisá-lo antes que o monstro começasse a bater na porta.
No entanto, a curiosidade ou a ingenuidade do jovem o levou a desobedecer. Assim que abriu a porta, a criatura atacou com sua lamina. A ninfa gritou, vendo o humano ser derrubado.
Em um último esforço, a escama dourada começou a brilhar intensamente. Sentindo o chamado, a ninfa canalizou suas últimas forças na magia que restava em seu corpo. Correntes douradas emergiram do chão atacando o viajante sombrio que desapareceu.
O jovem humano, que parecia perdido entre a vida e a morte, foi envolvido por essa mesma luz. A escama vibrava, emanando uma energia que a ninfa reconheceu imediatamente. Ela olhou para ele, compreendendo o que aquilo significava.
Com um sorriso fraco ela murmurou. A luz dourada tomou conta do ambiente, e a ninfa sentiu sua energia sendo transferida para o humano. Sabia que sua missão estava completa. Com um último olhar para ele, deixou-se levar pela luz, sua essência agora parte de algo maior.
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